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Escrito por:

Pedro Francisco

Farmacêutico Coordenador do Programa de Adesão Terapêutica

Sempre que tenho um doente crónico e antes mesmo de dispensar a medicação da receita, faço a mesma pergunta – Então como se tem sentido ultimamente?
Eu sei que esta pergunta pode abrir a Caixa de Pandora, mas não consigo deixar de a colocar porque a Saúde de quem entra na Farmácia é muito importante para mim.
A resposta da D. Madalena surpreendeu-me. Uma senhora com 55 anos, activa, sempre sorridente, com hipertensão, colesterol elevado e um IMC de 26.
– Ultimamente tenho sentido dores de cabeça e o coração acelerado – respondeu timidamente, enquanto a escutava com um olhar e sorriso tranquilo.
– Venha comigo D. Maria – e levei-a até ao Gabinete do Utente, para lhe medir a Pressão Arterial com as regras de medição em ambulatório.
E a média dos valores não podia ser mais preditiva – 167/94 mm Hg, com uma Frequência Cardíaca de 89 BPM.
Mesmo considerando a pressão da bata branca, a preocupação sobrepôs-se à curiosidade e por isso fui investigar o histórico da D. Maria.

O sistema deu a informação e a aritmética simples confirmou que a última vez que levantou a medicação fazia três meses. A não ser que houvesse um golpe de magia, já não teria anti hipertensores para tomar fazia já muito tempo.
Agora, cabe-me fazer as perguntas, mas com elas não julgar ou atacar o comportamento do doente, para tentar a maior sinceridade na resposta. E com o sorriso mais tranquilo que fui buscar na minha preocupação, perguntei.
– Diga-me D. Maria, quando sente que a sua tensão arterial está controlada, por vezes deixa de tomar os medicamentos?
A verdade é que se não perguntamos, não nos dizem nada.
– Sim é verdade, respondeu um pouco encavacada – às vezes faço isso, sempre são menos químicos que nós tomamos.
Uma coisa é certa, os medicamentos não são eficazes em doentes que não os tomam. Ainda que não haja muitos estudos, uma revisão sistemática ao tema publicada em 2021 no British Journal of Medicine, aponta para que o nível de não adesão entre doentes com várias patologias varia entre 44,1% –76,5%.
Convém desde já acabar com os mitos de que a não adesão é um problema dos doentes com baixa escolaridade que não levam a doença a sério, ou que a não adesão é totalmente culpa do doente, ou mesmo que a não adesão não é da responsabilidade dos profissionais de saúde, porque os doentes já são crescidos.

A fraca adesão terapêutica é uma responsabilidade de todos porque gera desperdício em saúde e acima de tudo complicações que podem ser graves na saúde dos doentes.
O problema da adesão terapêutica não é uma coisa de agora. O primeiro médico que se deparou com este problema foi o “pai da medicina”, Hipócrates, nascido no século V a.C., que na altura alertou – “vigiai também as falhas dos doentes, o que muitas vezes os faz mentir sobre a ingestão de coisas prescritas”.
A nossa razão de ser nas Farmácias do Grupo Antunes, é a sua Saúde. Temos todos de contribuir para aumentar os níveis de adesão terapêutica.